quarta-feira, 9 de março de 2011

Che Guevara e o indivíduo socialista.

Há muitos críticos do marxismo que referem uma certa aversão de Karl Marx e seus correligionários futuros pelo “indivíduo”, como se os marxistas tratassem de desumanizar ou anular as características internas do indivíduo, buscando uma espécie de "igualdade de natureza" entre as pessoas, ou seja, o fim de diferenças pessoais. Eu sempre vejo esse tipo de argumento ser utilizado contra o socialismo por liberais e acefalia xarope ltda. É muito fácil falar em "natureza" humana, não é? Uma criança tem um brinquedo e quer dois; tem dois e quer quatro. Essa é a natureza humana, certo? Agora, quando essa sociedade passa a agir dessa forma de maneira monopolizante excluindo e oprimindo os menos afortunados, disseminando massivamente valores como o egoísmo, o individualismo, a competição ferrenha, a concorrência de todos contra todos, o consumismo desenfreado, permitindo que a lógica e lei do Capital tomem conta se fazendo sentir de maneira decisiva na vida, formação e desenvolvimento da consciência das pessoas em forma de reificação (a transformação do que outrora era objeto, dinheiro, em sujeito; o que era sujeito, homem, em objeto desse sujeito abstrato), na maneira em como elas interagem com seu semelhante e enxergam a realidade ao seu redor etc., essa é a natureza humana?! "Criar uma comunidade uma realidade social em que seja impossível que ela independa dos indivíduos, em que eles controlem os processos sociais de modo a realizar suas potencialidades. Marx está longe, bem longe, de ser hostil ao indíviduo.”, foi o que ouvi certa vez do forista "Groucho Marxista", na comunidade orkutiana Karl Marx – Brasil, em debate sobre o assunto. Groucho estava certo. O caminho é mais ou menos este mesmo: o do fim da alienação (alheamento). O homem não seria mais um joguete de forças materiais externas ("(...) não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência..."), mas um artífice do mundo. Não viveria mais em uma "gaiola invisível" onde as suas oportunidades muitas vezes são defninidas por forças que ele simplesmente não pode ver, imaginar ou determinar; em suma, não estaria mais em contradição com o mundo, mas seria parte dele, "sentiria-se em casa". Pois bem, posto isto, tenho uma revista aqui em casa com alguns ensaios do incomparável Ernesto Che Guevara e também de autores analisando pontos caros do seu ideário político - acho que tem na internet também. Ele debruçou parte e demonstrou importância considerável nos seus estudos e investigações ao tema do indivíduo em questão, ou melhor, do que seria o indivíduo integral, "o homem novo" socialista. Compilei algumas coisas, acrescentei outras, enfim, espero que sirva para elucidar alguns pontos... ao meu ver é uma contribuição bastante relevante. Tô desde ontem de noite em cima disso e deu trabalho montar tudo, então, para a meia dúzia de grilos que por acaso lerem isto, façam-no com atenção, ok? Haha.

Che Guevara não foi apenas um homem lírico, um poeta, desses indivíduos que, em lugar do fuzil às costas, tinha nos lábios o verbo em fogo da Revolução.

Che refutava a tese de que a construção do socialismo significava a “abolição do indivíduo”. Pelo contrário, o indivíduo era a essência da revolução. Mas que tipo de indivíduo? “O “verdadeiro homem” – a “verdadeira pessoa humana” – não existe realmente na sociedade capitalista salvo em uma forma alienada e reificada na qual encontramos ele como “trabalho” e “capital” (propriedade privada) opondo-se antagonicamente.” (MÉZÁROS, 2006: 106). O homem socialista aparece para Guevara como uma superação dialética desse homem capitalista, alienado pelas relações de produção regidas pelas leis do Capital. Retomando os “Manuscritos econômicos-filosóficos”, Che se funda na concepção marxista do comunismo como “solução do conflito entre o homem e a natureza e do homem com o homem”, como processo de real apropriação de sua essência e, portanto, como fenômeno consciente. "(...) Retornando assim à concepção original de Marx, ele afirma que o comunismo não pode ser, o resultado “objetivo” do desenvolvimento econômico sob um Estado socialista”, mas somente o processo pelo qual a humanidade se apropria de seu social. (SADER, 1981, p.24) Guevara escreve que no socialismo o homem deve desenvolver uma nova consciência, para poder avançar na construção da sociedade revolucionária. Em seus estudos, Che parte da compreensão de que não se pode chegar ao comunismo mediante apenas o crescimento, o desenvolvimento e a nacionalização das forças produtivas. Ele afirma que: “Para construir o comunismo, simultaneamente com a base material tem que se fazer o homem novo.” (GUEVARA, 2005, p.51). Portanto, sua concepção ressalta que a sociedade em construção revolucionária deveria forjar um novo indivíduo, e este seria a negação dialética do homem alienado, soterrado pelo pensamento individualista burguês do capitalismo. Essa citação afirma que o pensamento de Che coloca o homem no centro da construção do socialismo. É essa ação humana que transforma as condições objetivas, que muda uma realidade conhecida, que modifica as relações de produção e reprodução, as quais os homens são submetidos. E mediante essas transformações, também se forja outro pensamento, novas idéias surgem, ou seja, a consciência também ganha nova forma. Portanto, o homem do qual Marx e Engels falam e Che retoma essa interpretação é o homem em revolução constante, por meio de uma prática, que está estreitamente ligada à atividade material. Che retoma o pensamento de Marx na análise do papel do homem em sua ação revolucionária, entendido como ser social que transforma a si mesmo, concomitantemente com a transformação da sociedade, em outras palavras, são os homens que mediante a luta de classes movem o ambiente histórico. Ele elucida que não basta transformar a base econômica da sociedade em transição é preciso simultaneamente construir um homem desprovido dos valores da sociedade pré-revolucionária. Sua concepção elucida, sobretudo, o papel do homem como sujeito da transformação histórica, entendido como ser social que transforma a si mesmo concomitantemente com a transformação da sociedade.

“O individualismo em si, como ação isolada de uma pessoa num ambiente social, tem que desaparecer de Cuba. O individualismo de amanhã deve ser a utilização adequada do indivíduo por inteiro para o benefício absoluto da coletividade (...) Acho um crime se pensar constantemente em indivíduos, porque as necessidades do indivíduo passam inteiramente para segundo plano diante das necessidades do coletivo”. Ainda na mesma linha, sobre o indivíduo: “Acredito que o mais simples é reconhecer sua qualidade de não-feito, de produto não acabado. As taras do passado são transmitidas, no presente, na consciência individual e há necessidade de se fazer um trabalho contínuo para erradica-las. (...) é necessário que se desenvolva uma consciência na qual os valores adquiram categorias novas. A sociedade em seu conjunto deve transformar-se em uma gigantesca escola. (GUEVARA, 2005: 50-51)”... Outra coisa: seu pensamento elucida que a transição é marcada pelo antagonismo e conflito entre as novas relações sociais que subsistem ao mesmo tempo com as antigas taras do capitalismo. No socialismo deve-se suprir o legado da velha sociedade, negá-la e superá-la. Os mais terríveis adversários para a conscientização das massas são a ambição demasiada e os hábitos egoístas do capitalismo; a força do costume individualista burguês, que busca satisfazer apenas interesses individuais. Esse legado é o maior inimigo da nova sociedade, um gigantesco oponente no processo de construção do ‘homem novo’ e da sociedade socialista.

Che explica esse processo, mediante o exemplo de uma pessoa que se recupera de uma enfermidade: “É como um mal que tivera inconscientemente uma pessoa. Quando acaba o mal, o cérebro recupera a claridade mental, mas os membros não coordenam bem seus movimentos. Nos primeiros dias, após sair do leito, o andar é inseguro e pouco a pouco vai adquirindo a nova segurança. É neste caminho que estamos.” (GUEVARA, 2005: 22). Che reafirma a necessidade de trabalhar a consciência de cada indivíduo para que adquira novos hábitos e valores. Sua concepção atenta que o homem deve sobrepujar suas ambições individualistas burguesas em favor dos interesses coletivos, que representem verdadeiramente todo um grupo e não interesses particulares.”Nós não podemos estimular e sequer permitir atitudes egoístas nos homens, se não quisermos que os homens sigam o instinto do egoísmo, da individualidade; (...) O conceito de uma sociedade superior, pressupõe um homem desprovido desses sentimentos, um homem que tenha subjugado esses instintos.” (CASTRO apud FERNANDES, 1979: 154). Isso implica que o homem que veio de uma sociedade individualista deve alcançar um alto grau de consciência social, em outras palavras, ele deve estar impregnado de sentimentos de amizade, fraternidade, compreensão, etc. O pensamento de Che defende o valor do humanismo, do homem que compreende e cumpri seu compromisso e dever perante a sociedade em construção e transformação.

O cubano Fernando Martinez Heredia, em sua obra Ché, el socialismo y el comunismo, afirma que: “En la concepción del Che la conciencia es la palanca fundamental, el arma para lograr que las fuerzas productivas y las relaciones de producción sociales dejen de ser medios para perpetuar la dominación, como era en el capitalismo”. (HEREDIA, 1989: 70) E Luiz Bernardo Pericás, em sua tese, Che Guevara e o debate econômico em Cuba, acrescenta que: O importante seria, portanto, transformar esse homem individualizado no homem socialista, que precisaria da comunidade para desenvolver sua individualidade”.(PERICAS, 2004: 170) A concepção de Guevara retoma o pensamento de Marx, que conforme seus estudos, a consciência não é pura, ela é influenciada pelo meio social, pela relação dos homens com outros homens. “A consciência é, antes de tudo, mera consciência do meio sensível mais próximo e consciência de uma interdependência limitada com as demais pessoas e coisas que estão situadas fora do indivíduo que se torna consciente”. (MARX; ENGELS, 2004: 23)

A consciência é em sua origem um produto social, nascido das relações humanas, ou seja, do seu meio sensível mais próximo. Partindo dessa afirmação exposta por Marx, Che argumenta em favor de uma transformação da consciência desse homem que vem do capitalismo, mediante a produção da vida material, por meio de suas relações sociais com outros homens, atuando em sociedade. Se o homem é sujeito da transformação histórica, a revolução proletária, só pode se concretizar como um ato consciente! Essa condição parte de uma premissa fundamental do socialismo científico, exposta por Engels: "A própria existência social do homem, que até aqui era enfrentado com algo imposto pela natureza e a história, é, de agora em diante, obra livre sua. Os poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na história, colocam-se sob o controle do próprio homem. Só a partir de então, ele começa a traçar a sua história com plena consciência do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por ele começam a produzir predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade." (ENGELS, 2003: 65)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A felicidade segundo o evangelho de Lacan

A Giorgia e o Gaybs não fazem um esforcinho para fazer esta PORRA começar a funcionar regularmente - puta falta de sacanagem - e o tédio silencioso da madrugada hoje está, ao contrário de confortar, angustiando. Foda-se, né mesmo!? Acredito que viver, ou ao menos aprender a viver, seja isto: contentar-se com o vazio. O que não significa resignar-se perante ele ou aceitá-lo, mas sim consumir-se dentro dele conscientemente a fim de criar o momento correto e maduro para superá-lo.

Assisti há algum tempo atrás uma palestra do excelente psicanalista Jorge Forges expondo em termos gerais a contribuição do grande Jacques Lacan para uma nova perspectiva psicanalítica contemporânea, isso é, freudiana (edípica) mas vista de uma perspectiva mais sofisticada, horizontal (pós-edípica), em compasso com as mudanças radicais provocadas no indivíduo inserido na ordem social em tempos de globalização e capitalismo tardio (sic). Após explicar as diferenças entre os dois períodos fundamentais da obra do psicanalista francês, a Primeira Clínica e a Segunda Clínica, Forbes - que foi aluno de Lacan nos anos 70 - passou por uma gama bastante elástica de assuntos à luz da análise lacaniana, mas um tema em especial chamou minha atenção: a felicidade. Para este texto, valerei-me de uma série de intervenções compiladas do próprio Forbes e citações feitas por ele de outros autores durante sua exposição.

Jacques-Marie Émile Lacan (1901 - 1980)
Para muitos, o mais original e influente pensador da psicanálise depois de Freud. Suas ideias revolucionaram a prática clínica. Foi o responsável pela aproximação entre psicanálise, linguística e estruturalismo, valendo-se primeiramente das teorias de Ferdinand de Saussure e mais tarde da antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss.

Mas o que afinal Lacan nos diz sobre a felicidade, qual é a concepção de felicidade para o psicanalista doidão (colocar "psicanalista" e "doidão" na mesma frase parece-me um pleonasmo haha, mas enfim...): “Existe o feliz acaso, aliás, existe isto; felicidade do acaso, ele nos diz. Que felicidade é esta? É uma felicidade certamente distinta dessa felicidade que nós estamos acostumados a pensar. Essa felicidade é do acaso porque ela não tem nome, ela não pode ser nomeada. O filósofo e jurista italiano Giorgio Agamben nos diz: “Mas de uma felicidade de que podemos ser dignos, nós (ou a criança em nós) não sabemos o que fazer. É uma desgraça sermos amados por uma mulher porque o merecemos! E como é chata a felicidade que é prêmio ou recompensa por um trabalho bem feito! Felicidade não é bem que se mereça. (...) Quem é feliz não pode saber que o é; o sujeito da felicidade não é um sujeito, não tem a forma de uma consciência, mesmo que fosse a melhor”. Felicidade que não progride, nem se acumula, pois se assim fosse acabaríamos estourando em sua plenitude. Essa felicidade é uma felicidade que não pode se explicar, não é uma verdade provada, mas sim verdade indeterminada, experimentada, fragmentariamente, no varejo de nossas sensações e emoções.

Ela foge às definições e explicações objetivas da consciência. Felicidade que põe em dúvida a nossa identidade, fruto do acaso, da surpresa, do inesperado, do inusitado no sentido em que a palavra nos lembra, do que é sem lugar e tempo definidos para acontecer. Momentos de felicidade - são sempre momentos e não essências -, momentos de amor fulgurantes em que a pessoa experimenta a sensação de quase-morte. Em que a pessoa tem uma sensação como se estivesse no olho de um furacão, uma sensação de perda de identidade ou de colocá-la em risco, uma sensação de tontura; uma sensação de querer agarrar-se no outro. Esse amor é um amor incômodo, um inquietante animador. O mais complicado é deparar-se com essa coisa dura que não tem nome nem nunca terá, frente a qual não há o que se decifrar, e darmo-nos conta de que nós é que deveremos nomeá-la baseados na nossa experiência singular e nos responsabilizarmos por ela.

Amores expressos na sua impossibilidade - amor que você tenha que encontrar uma solução para ele, uma expressão para ele, e que você encontra de fato às vezes, mas temporariamente, rapidamente de tal forma que faz com que quando você o expresse logo em seguida você mesmo se pergunte: “Será que eu consegui?”, - no seu fim que não muda pela vontade, que insiste nesse seu fim em si de ser impossível. A grande sacada é poder dar um passo além do trágico dessa impossibilidade, e o passo além é exatamente abrir mão da segurança no trágico, da incerteza que é a materialização do complicado, do “impossível” e da falta de perspectiva como tal, para passar da dificuldade à invenção. A vontade de, ao invés de resignar-se, sustentar que a aceitação das adversidades não implica capitular-se ou entregar-se diante delas, mas sim enfrentá-las e combatê-las. Ainda em Agamben: “(...) A magia não é conhecimento dos nomes, mas gesto, desvio em relação ao nome (...) Logo que inventa um novo nome, ela, a pessoa, ostentará um passaporte que a encaminha à felicidade. E então podemos entender a frase de Kafka: “Se chamarmos a vida pelo nome justo ela vem, porque esta é a essência da magia, que não cria, mas chama. No mais, que diabos seria o amor se não, em última instância, o produto do nível de compreensão que as partes têm uma da outra? "O amor é filho da compreensão; o amor é tanto mais mais veemente, quanto mais a compreensão é exata", disse Leonardo Da Vinci. Ou seria o contrário, seria fruto da incompreensão tácita e, implicitamente, compaixão tácita pela nossa limitação em compreendermos ou obtermos uma visão clara do outro, parcial ou totalmente em si? Meio-termo entre ambos, talvez?!

Enfim... Eu não tenho a menor ideia. As melhores coisas nesta vida se dão porque a gente não as compreende.

Já disseram por aí: "Só é digno da liberdade, como da vida, aquele que se empenha em conquistá-la." (Johann W. Goethe)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Prolegômenos: ou seja, alô!

Este blog surgiu como a expressão cristalizada do narcisismo e vontade de aparecer - brincadeira hehe - de três amigos bastante distintos em gostos e opiniões, distantes um do outro em presença física, mas que em comum possuem a necessidade de descontruir as suas ilusões pessoais e deixar claro para todo mundo a sua rejeição ao mundo comum, ao senso-comum e lugar-comum alheio, às verdades prontas, ao fracasso social da nossa geração, à moral e sabedoria estabelecidas, enfim... de não renunciar ao seu direito de gritar, cantar, provocar, perguntar, instigar e, sobretudo, perturbar... não te deixar em paz e te explicar porque você é um merda por colocar frases do Caio Fernando Abreu no seu perfil do Orkut... Levantar dúvidas sobre certezas e abrir lacunas onde tudo parece estar em perfeita ordem. Esta é a nossa forma.

Dito isso, vamos ao que realmente interessa: o conteúdo. A Giorgia escreverá sobre cinema e livros. Ela é legal e está solteira. O Gabriel Ivre escreverá sobre música. Ele não é legal e é comprometido com Jesus. E eu escreverei sobre política e filosofia - de boteco. Sou o mais legal de todos e estou à procura de meninas com namorado para aventuras discretas e revoluções no gozo.

That's all, folks.

Já disseram por aí: “Quem não quer pensar, é um fanático; quem não pode pensar, é um idiota; mas quem não ousa pensar, é um covarde." (Horace Walpole)